Cinema Paradiso



Prazer a três[i]


Reservo a avant première do meu “Cinema Paradiso” a um filme completo em relação aos temas abordados nos Delírios a propósito de uma fantasia erótica...  Muito do que eu disse foi mostrado de maneira idêntica na tela, a começar pela epígrafe.[ii] Até parece que me inspirei nessa história, embora só a tenha assistido quando o livro estava praticamente concluído. Um envolvente enredo entrelaçando duas mulheres e um homem.

Apostando nas tríades, o filme vê nelas alternativa alvissareira. É otimista em relação à possibilidade e mostra o quanto vale a pena tentar. Se alguém pedisse para indicar um único filme sobre o tema das tríades (sem atentar para a qualidade da direção, roteiro, interpretação, etc, com foco apenas na trama a três), eu recomendaria este.

Confrontamo-nos com três pessoas sem qualquer experiência prévia em relacionamentos a três. Juntas, vão descobrir a força dessa união, tal como eu a descrevi, passando, porém, por momentos de angústia e fortes crises de ciúmes. Só então se apercebem de que o que buscam apenas existe num ambiente de sinceridade, lealdade, cumplicidade, despojamento, solidariedade; ambiente sem hipocrisia e conformado pelo amor e amizade. Aleluia! Tudo isso é possível e os três descobrem que essas são normas básicas para uma fantástica convivência, cuja regra número um deve ser, desde o ato inaugural, “tudo revelar”. Conversem, conversem, conversem e conversem...

A aproximação de Elena, Julian e Chalice, durante a primeira relação sexual, é singela e reveladora. A edição do filme soube explorar a sequência que se abre em clima de total ingenuidade, passa por uma aproximação quase adolescente, retraída, desconfiada, e num crescendo exultante chega à voluptuosidade marcada pelo erotismo ardente, incandescente. É sequência de muitas descobertas; o início do aprendizado.

Depois disso, será a vez de Chalice e Elena explorarem a homossexualidade, adormecida até aquele momento. A dupla que se forma vai atormentar Julian, simplesmente porque as mulheres fizeram tudo às escondidas. No entanto, aquela era precisamente uma das três duplas essenciais em todo amor a três, as quais precisam surgir para que uma tríade ganhe força e subsista. A manifestação dos desejos e a liberação dos sentimentos colocam a relação no eixo, corroborando a ideia de que, sem um grau extra de sinceridade, dificilmente qualquer tríade sobreviverá, Pior ainda: nessas circunstâncias, a inclusão de um terceiro vai abalar as estruturas de qualquer casal, por mais sólida que seja a relação. Contudo, os três amantes do filme optaram por se expor completamente e por esse atalho conseguem fazer prevalecer o ideal maior da união a três. Vê-los na cena final, poeticamente caminhando juntos, é comovedor.


Elena, Chalice e Julian



[i] Kiss Me Again - Direção de William Tyller Smith; Estados Unidos, 2006. O trio que se descobre é composto por Julian (Jeremy London), Chalice (Katheryn Winnick) e Elena (Mirelly Taylor). As fotos são de divulgação do filme. A seguir o link para algumas cenas do filme:

[ii] Prazer a três começa com uma citação do idolatrado Erich Fromm, epígrafe perfeita para retratar os fundamentos sobre os quais uma tríade deve se estruturar:
“O amor só é possível se o casal se comunicar completamente. Não é um local de descanso, mas sim um trabalho mutante e crescente de ambas as partes.”
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Dieta mediterrânea i]
                
 Dieta mediterrânea é um filme que vem acompanhado pelos sabores e odores induzidos por dois chefs surpreendentes: Sofia e Frank. Toni e Sofia se amam muito, mas Frank e Sofia se desejam com ardor. Antes de se casar com Toni, ela diz que precisa conhecer mais homens e tudo se passa à maneira dos triângulos excludentes. Frank, porém, sabe que Sofia é uma estrela que pode brilhar no mundo da alta gastronomia, enquanto Toni a deseja apenas como esposa exemplar. Frank abre o olho de Toni a respeito do potencial de sua mulher e também cuida dele depois de um acidente de moto, situações que despertam a amizade entre os dois galos que disputavam a fêmea atraente e sensual. Mais que nunca, a mulher vai desempenhar papel decisivo na aproximação sexual de dois homens. Sofia faz isso com muita habilidade e os três se aconchegam com meiguice e tesão.
O filme não aprofunda a intimidade masculina, mas está claro que essa aproximação se dá em torno de Sofia, que compele os varões a atitudes carinhosas e arrojadas, como na cena do beijo a três, que termina com o beijo entre Toni e Frank. Toni não só se empenha em criar condições para a relação a três prosperar, como também cresce nele uma elegante altivez que revela seu preparo para enfrentar olhares de suspeição dirigidos ao trio. Inegável que a formação da tríade contribui para que os homens modifiquem radicalmente a percepção que tinham em relação ao sexo entre semelhantes, A relação triangular induziu-os a se moverem na escala da plurissexualidade[ii] desde o ponto de partida da exclusividade heterossexual, caminhando na direção de desfrutar sem pejo e com igual prazer, um certo grau da homossexualidade que lhes é latente ou inerente.
O filme contrapõe a tríade perfeita, impregnada de amor e sexo, a um quarteto não tão harmonioso: o pai de Sofia acolhe rapazes enquanto a esposa consola-se nos braços do pai de Toni. Dieta Mediterrânea também explora com bom humor – expresso, sobretudo, nos olhares de surpresa e admiração - a maneira como o mundo das aparências percebe a diversidade de expressão sexual. A tríade sai vitoriosa e escancarada, A trinca, então, exibe a mesma altivez do olhar de Toni ao encarar a plateia que, surpresa, vê Sofia beijar ardentemente seus dois homens, após afirmar que “errar não importa, o que importa é continuar procurando” referindo-se à superação da crise que por um tempo abalou o relacionamento entre os três. A simbiose é tal que Sofia termina por gerar um rebento totalmente mestiço: uma menina “com os olhos verdes de Toni, e os lábios carnudos de Frank”.


[i] Dieta Mediterrânea - Diretor: Joaquin Oristrell; Espanha, 2009. Trio apaixonado: Toni (Paco Leon); Sofia (Olívia Molina); e Frank (Alfonso Bassave). As fotos são de divulgação do filme. Segue o link para o trailer do filme:
[ii] A escala da plurissexualidade foi desenvolvida no capítulo Enfim, sós! dos meus Delírios...
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Os sonhadores[i]




Matthew, Isabelle e Theo




O despertar, o desabrochar de Matthew para a pluralidade da atração sexual constitui um sutil pano de fundo para Os sonhadores. Adepto incondicional da não violência, o universitário, que escapou da Guerra do Vietnã, despe-se pouco a pouco dos formalismos que o cercam, para se entregar ao amor plurissexual.


Ao longo do enredo, cresce o fascínio de Matthew pelo casal de irmãos: “para mim, vocês são duas metades da mesma pessoa, fizeram me sentir como se fosse parte de vocês dois”. É encantador percebê-lo pronto para experimentar além de limites estabelecidos e rígidos. Difícil, porém, especular até onde ele se moveria na escala de entrega a outro homem. Contudo, a cena em que os três são vistos dormindo aconchegados e nus sugere que muitos padrões foram rompidos naquela noite. Talvez alguém duvide de que Theo verdadeiramente deseje outro homem - num dado momento, ele sugere que não deseja mesmo, embora a sua fala possa indicar justamente o desejo reprimido. É mais provável que seja visto como um voyeur nato que se compraz observando a irmã sendo possuída por um grande amigo. Ele, porém, adora exibir sua nudez para Matthew, o que acontece em várias ocasiões. Isso sem mencionar o momento em que se masturba diante do amigo, instigado pela irmã.




Esse é mais um filme que revela as dificuldades que um homem “normal” sente para dar vazão a uma atração física, também “normal”, por outro homem. Em meio a uma conversa onde os rapazes expressam opiniões políticas divergentes, ambos deitados na cama, Theo agarra Matthew pela garganta até quase sufocá-lo. Vai então se aproximando do amigo, deitando-se com vigor sobre suas costas e pernas; os rostos se tocam, os lábios se roçam. A câmera demonstra estarem prontos para um beijo. Novamente, como se verá em vários filmes neste nosso Cinema Paradiso, a força bruta parece ser o canal que o homem utiliza para expressar o desejo sexual pelo amigo do mesmo sexo.

Talvez a intensidade do tema do incesto prejudique a clara compreensão acerca da elasticidade das inclinações homossexuais daqueles jovens, em particular de Theo. Contudo, com o desenrolar da trama, é inquestionável que ambos sentem-se cada vez mais atraídos um pelo outro.  Entretanto, era 1968 e havia muitas barreiras a serem transpostas por uma juventude sedenta de mudanças, em meio a uma multiplicidade de alternativas que clamavam por transformações radicais.




[i] Os Sonhadores (The Dreamers) – Direção de Bernardo Bertolucci; França / Reino Unido/Itália; 2003. As fotos são de divulgação do filme. O trio é encenado por: Matthew: Michael Pitt; Isabelle: Eva Green; e Théo: Louis Garrel. Segue o link para o trailer do filme:
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Três vidas e um destino[i]
  Esse filme toca fundo os sentimentos. Faz chorar os mais sensíveis e remete a Os sonhadores de Bertolucci, trazendo, mais uma vez, de maneira dramática e definitiva, o dilema entre a guerra e a paixão. Como optar entre o amor e o conflito num mundo onde a crueldade do nazi-fascismo tornou sórdida a sobrevivência e, mais que isso, a própria existência humana?
Aqui a plurissexualidade é feminina e o mancebo protagonista apenas se interessa por mulheres. Profunda abordagem de dilemas - violência versus paixão, individualidade versus preocupações sociais - o filme mostra como essas questões vão se transformando na mente dos personagens. Retrata com apurado senso estético as mazelas oriundas do desvario, da falta de sentido, num mundo onde a crueldade se disseminou, onde os encontros e desencontros marcam tristemente as impossibilidades para a fruição do prazer.
   
Mia. Gilda e Guy  
O dilema central dos personagens é viver um grande amor a três, ou engajar-se numa luta inevitável para salvar o mundo das atrocidades, da insanidade, da irracionalidade e, talvez, da tentativa de eliminar a libido ou de colocá-la a serviço sabe-se lá de quais propósitos de um poder nefasto, desumano. Gilda, a mulher exuberante, ousada e atraente, escolhe Mia e Guy para compartilhar sua cama. Na ótica do diretor (também evidenciada nos extras do DVD), a atmosfera que precedeu à guerra levou as pessoas a “viverem intensamente”, e os três o fazem com muito amor e camaradagem. Mais tarde, Mia confirmaria a força daquele compartilhamento:
- Foi a época mais feliz da minha vida; nós três juntos.
Ela então escreve uma carta para Gilda, em que evidencia a situação embaraçosa na qual os três estavam mergulhados.
“Eu sei que para você todas as guerras são inúteis e que, arriscando nossas vidas, estamos traindo a nós mesmos e a você.”
Depois de enfrentar sem muito sucesso as atrocidades do conflito, Guy confunde-se:
 - Tenho me perguntado se tudo isso vale a pena. Talvez Gilda tenha razão e devêssemos deixar que o mundo siga seu curso.
 Três vidas e um destino
(Mia, Gilda e Guy)
Embora Gilda inicialmente assemelhe-se muito ao Matthew sonhador da primavera de 68 em Paris, ela ganha dimensão crucial à medida que é levada a perceber que “não podemos viver sozinhos, isolados do mundo” e que “acreditar que não podemos mudar os nossos destinos é um ato de rendição”. Assim, descarta a sua crença anterior de que o “nosso dever principal é servir a nós mesmos”.
Em favor de Matthew, é preciso lembrar que a sua negação à violência ocorreu mais de 30 anos depois da hecatombe com a qual Gilda se depara. A posição ideológica do rapaz claramente indica o cansaço ante a tragédia que permanecia viva na memória coletiva, responsável pelo aparecimento do lema que também o embalou:
Sim ao amor; não à guerra
Enquanto Guy, Mia e Gilda não tiveram condições de deter a onda de destruição que viria e abrir mão do prazer em favor de direitos e princípios universais, Matthew pôde, sim, quase trinta anos depois, intervir no rumo do conflito (Vietnã), indicando caminho alternativo para a insensatez daquela virilidade mórbida. Assim, ele aponta para outra via, optando pelo beijo na boca dos seus dois amores, ao tempo em que nega poder ao molotov caduco.
Interessante comparar dois filmes em que a atração entre as mulheres dá o tom para a tríade: Três vidas e um destino e Vicky Cristina Barcelona[ii] (este último foi longamente abordado no livro, no capítulo Proibido Proibir).
Maria Elena, Juan Antonio e Cristina
 
À parte a peculiaridade por presenciarmos a mesma sensual e bela Penélope Cruz entregando-se a ambos os sexos, nos dois filmes, sobressai a sensação de que as mulheres se comprazem, sem distinção, com os dois gêneros. Talvez em Três vidas..., Mia, o personagem de Penélope, tenha leve inclinação pelas mulheres, enquanto sua amante, Gilda, jamais saberia optar por um ou outro sexo; ela precisa igualmente de ambos. Tal qual Maria Elena (Vicky...), a barcelonesa esquentada, Gilda parece não fazer distinção entre o tesão pelo masculino ou pelo feminino. Claro que Cristina vive sua primeira experiência homossexual naquele verão em Barcelona e o desenlace demonstra que ela empacou sem saber optar. O filme mostra como Cristina rapidamente se flexibiliza e saboreia com prazer o sexo entre semelhantes, sem precisar ser corrompida. Ao contrário, entrega-se por livre e espontâneo deslumbramento. Cristina, porém, nunca sabe o que quer, ou talvez, genuíno produto do meio de que provem, sempre quer mais e jamais se satisfaz com qualquer coisa. Assim, descarta, numa só tacada, a possibilidade de amar uma mulher e de pertencer a uma tríade. Já os varões de ambos os filmes não revelam qualquer pendor pelo próprio sexo. Digno de destaque é Javier Barden, na pele de Juan Antonio (Vicky...), um garanhão que demonstra estar pronto (e bem preparado) para “aguentar o tranco” com duas mulheres muito atraentes na cama.



[i] Head in the clouds; Direção de John Duigan; Estados Unidos / Reino Unido / Espanha / Canadá; 2004.  O trio é caracterizado por Gilda (Charlize Theron), Guy (Stuart Townsend) e Mia (Penélope Cruz). As fotos são de divulgação. Abaixo o link para o trailer do filme:
[ii] Vicky Cristina Barcelona – Direção de Woody Allen; Espanha / EUA; 2008. O trio que acontece no filme é integrado por Cristina (Scarlett Johansson); Maria Elena(Penélope Cruz); e Juan Antonio (Javier Barden). As fotos são de divulgação. Abaixo o link para o trailer do filme:
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Eu te amo Renato


Eu te amo Renato, é um filme brasileiro que foi produzido exclusivamente para distribuição na internet. Dirigido por Fabiano Cafure, ele foi postado em abril deste ano. O adorável trio – Beto, Bia e André - vive cenas de uma sensualidade tocante. Só elas já valeriam o filme, este sim, uma verdadeira Elegia (ou, como nosso amigão Aurélio esclarece, um “poema lírico cujo tom é quase sempre terno e triste”). O filme é de fato um poema lírico terno e triste. 

Não entrarei em detalhes do filme, pois recomendo que vocês o assistam. Ele está disponível gratuitamente no portal “Canal O cubo”, na seção de ficções. Abaixo o link para a íntegra do filme:

  
 
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Jules e Jim[i]
Catherine, Jim e Jules

Jules e Jim é um primor da sublimação. Óbvio que os dois homens se amavam e se desejavam, mas não foram capazes de exercer aquele amor em sua máxima extensão. Transpuseram para as mulheres a fascinação de um pelo outro, e, desde que se conheceram, compartilhá-las foi um exercício. Numa escala imaginada no meu livro para medir a plurissexualidade humana, Jules e Jim pendiam para a atração forte pelo feminino. Mas eles não ousaram superar barreiras, não afrontaram convenções, pois não se dispuseram a intimidades que estavam latentes em seus corações.
Valho-me do romance e do roteiro do filme; restrinjo-me ao começo e ao final da história. Logo depois de se conhecerem, a amizade despontou com vigor, conta o romance em sua primeira página:
“Jules e Jim viam-se todos os dias... Conversavam com vagar, e nunca nenhum dos dois tivera ouvinte tão atento. Os fregueses do bar logo lhes atribuíram, à sua revelia, hábitos especiais.”[ii]
Depois de décadas de muita devoção de um ao outro, Catherine desnecessariamente põe fim a tudo. Tão ao meu gosto pelos finais felizes, a história bem poderia ter terminado com dois homens e uma mulher já idosos, “compartilhando, deliciando-se, revelando-se, fartando-se...” pois, ao longo dos anos, ela amou e transou abundantemente com ambos. Depois de assistir ao mergulho fatal de Catherine e Jim no Sena, Jules faz uma retrospectiva. No romance, ele reconstitui o passado com alguns detalhes expostos conforme a pena de um escritor bissexual:
“Jim e ele durante vinte anos não tiveram um único choque. Constatavam suas divergências com bom humor. Acontecia aquilo no amor? Jules buscou um casal que se aceitasse como ele e Jim. Jim tomara-lhe Lucie e Kathe. Não. Jules as entregara a Jim para não perdê-las e porque eram belas para lhe oferecer.[iii]
Para retratar essa mesma ideia, Truffaut transpôs para a tela um recorte de falas:
“A amizade de Jules e Jim não tinha equivalente no amor... Desfrutavam juntos de um prazer total com coisas pequenas, constatavam suas divergências com bom humor... Assim que ficaram amigos, ganharam os apelidos de Dom Quixote e Sancho Pança...”[iv]
Confesso acreditar piamente que os sentimentos entre aqueles homens caminhavam bem para lá “della diritta via” da simples amizade, e que a atração recíproca permeia a camaradagem que eles tão bem exprimiram. Pena e pecado foi mesmo não terem liberado ou desbloqueado sua disposição afetiva recôndita, enlaçando-se os dois em torno de Catherine.
Abaixo o link para o trailer do filme:


[i] Jules e Jim Direção de François Truffaut; França, 1962. O trio reúne Catherine: Jeanne Moreau; Jules: Oscar Werner; e Jim: Henri Serre. O romance Jules e Jim, de autoria de Henri-Pierre Roché, foi publicado juntamente com o roteiro do filme, por Jorge Zahar Editor; Rio de Janeiro; 2006; traduzido por André Telles.
[ii] Jules e Jim (Henri-Pierre Roché, Zahar Editor), pág.13.
[iii] Jules e Jim, pág. 165
[iv] Jules e Jim, pág. 266
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Eu Tu Eles[i]
Agora um filme nosso, com olhar diferenciado sobre o tema: Eu Tu Eles. Ali o arranjo entrelaça, admiravelmente, nada menos do que quatro vidas: três homens e uma mulher. Sem qualquer envolvimento entre os homens, debaixo do mesmo teto, num local ermo e distante, eles compartilham a mulher, solidarizando-se na criação dos filhos dos diversos pais e na atribuição das responsabilidades domésticas.
São homens rústicos, muito simples, nada a ver com a intelectualidade transoceânica transpirada por Jules, Jim e Catherine retratados por Truffaut. Talvez por isso, foi descomplicado para eles, ao contrário do trio europeu, superar barreiras para se permitirem permanecer juntos. Aqui prevaleceu o desejo à flor da pele (“aquele que não tem juízo nem nunca terá receita”), enquanto lá, no velho mundo, havia algo de insaciável, inatingível, cerebral, que impediu ou tolheu a fruição do prazer.
Nos cafundós de um sertão, mais agreste menos civilização, o arranjo múltiplo surpreende e dá certo, subsistindo com harmonia intrigante e desafiadora. Sob a batuta da mulher desejada pelos três homens, o quarteto passa a ser regido por um código próprio de fidelidade que permite mantê-los unidos, numa região que, curiosamente, caracteriza-se como machista. Vale o alerta do diretor, registrado nos extras do DVD:
“É um filme sobre as regras do jogo e de como a vida apresenta novas regras todos os dias. Se as pessoas quiserem ser felizes devem se adaptar... mesmo que passem por momentos de muita angústia.”
Esse filme de três machos em torno de uma arrojada mulher não deixa transparecer qualquer inclinação homoerótica dos personagens. A não ser, talvez, na figura de Zezinho, cuja docilidade poderia ser interpretada como indicativo de pendor pelos homens, embora tal afirmação possa retratar nada mais que um estereótipo. Zezinho certamente satisfez-se, solitário em sua rede, nas noites em que Darlene entregou-se a Ciro, ouvindo e excitando-se com os gemidos e sussurros do casal, visualizando cada detalhe de tudo que pressentia e de fato acontecia bem perto dali. Se convidado, não se faria de rogado para participar da cena e se daria por feliz como simples espectador. Ao contrário da esposa, mas não por ser mais idoso, Osias é alguém que não transpira sexualidade. O que mais preza, qual criança ou sinhazinha, é viver ao lado de pessoas que o atendem em suas incontáveis necessidades. Darlene, sim, é personalidade intrigante, pois mesmo a labuta diária e árdua pela sobrevivência não apaga nela a brasa do desejo, mas, ao contrário, compele-a a liderar de fato a sua vasta comunidade de homens e filhos. Indubitável que ela não tenha inclinação ou tempo para as mulheres.


[i] Direção de Andrucha Waddington; Brasil, 2000. Aqui há um quarteto composto por Darlene (Regina Casé),  Osias (Lima Duarte),  Zezinho (Stênio Garcia) e Ciro (Luiz Carlos Vasconcelos). Abaixo o link para o trailer do filme:
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Caramuru – a invenção do Brasil[i]

Começamos reconstituindo o caminho que os portugueses seguiram para chegar até Pindorama. De imediato, enfatiza-se que “não existe pecado do lado de baixo do Equador.[ii] Ora, embarquemos, pois, num “pecado rasgado, suado, a todo vapor, debaixo de um cobertor”: Caramuru – A invenção do Brasil é um filme que traz mais uma exuberante, alegre, divertida e também deliciosa tríade com predominância feminina. O filme implode os estereótipos, os preconceitos e os julgamentos mobilizadores de culpas, apostando todas as fichas no bom selvagem.
Fruir, desfrutar, sentir, regalar-se, gozar, curtir, saborear, apreciar, deliciar-se, experimentar prazer... assim acontece na vida desse trio É Paraguaçu quem nomeia: “Xodó, rabicho, candonga, querência, querer bem, saudade de coisa nenhuma.” Assim são os dias de Caramuru (filho do trovão que desceu do céu para ser rei dos Tupinambá), a partir dos ensinamentos das duas índias que o conquistaram, as belas irmãs Paraguaçu e Moema, livres das culpas, medos, vergonhas, pudores e preconceitos.
Não há incesto na visão delas, fato que Moema esclarece: “cunhada não é parente”, enquanto na terra de Caramuru, ao contrário, “todo homem que sendo casado é recebido por uma mulher, se outra receber, morra por isso”. Caramuru, porém, teve uma austera formação cristã-lusitana, segundo a qual, “[d]esde que nós fomos expulsos do paraíso o normal é ter vergonha... O pecado impõe a necessidade de vestir-nos”. Prova disso é que, mais tarde, o náufrago português chegou até a concordar que as suas formosuras “dessem” para os franceses aportados no navio, como demonstração de uma orgulhosa “hospitalidade tupinambá”.
Concretiza então a transformação fundamental, percebendo-se e constatando que é “impossível escolher. A gente não escolhe quem vai amar. O amor é que escolhe a gente. Ele me escolheu pra gostar das duas. E se um pode gostar de duas, as duas podem gostar de dois.”
Ao final do filme, uma lição tupiniquim, conforme a Tupinambá Paraguaçu: “Diogo me ensinou a amar e eu ensinei a ele querer bem e fomos felizes agora, que é melhor que para sempre.”
Só mais um reparo: fica na responsabilidade do cinéfilo, descobrir o que se passou entre as irmãs Moema e Paraguaçu. Talvez nada. O Diretor não especulou a respeito.
Abaixo o link para o trailler do filme:
(Direção Guel Arraes, Brasil, 2001)


[i] Filme dirigido por Guel Arraes; Brasil, 2001. Trio: Caramuru (Selton Mello); Paraguaçu  (Camila Pitanga); e Moema (Deborah Secco).
[ii] Os versos são da música Não existe pecado ao sul do equador – Chico Buarque / Ruy Guerra.
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E sua mãe também [i]
Júlio, Sofia e Tenoch


Esse filme escancara dois amigões devotados e inseparáveis, no esplendor da adolescência. Transpirando heterossexualidade e explorando afoitamente o sexo, os dois não se dão conta de que o entorno sufocava o desejo de um pelo outro. São dois “machinhos” falando o tempo todo sobre mulheres e sobre suas inúmeras namoradas e das belas trepadas que dão. Um deles levou para a cama, inclusive, ora vejam “tu mamá también”. O outro revelará que comeu a namorada do amigão várias vezes, sem que ele desconfiasse. Será possível admirá-los deitados à beira da piscina, cada um masturbando a si próprio enquanto se excita com as fantasias narradas pelo outro.




Foi necessário viajar a uma praia paradisíaca e fora do mapa, onde uma mulher dez anos mais velha, cobiçada por ambos, seduziu-os e permitiu que liberassem o desejo oculto, escudados numa relação a três.  Cena delirante da mulher fazendo a conexão entre dois homens, que resulta num beijo caliente entre os garotos. Cobiçavam-se, mas essa possibilidade foi excluída da ordem natural, graças a interdições familiares, culturais, sociais e religiosas por eles introjetadas, Assim, não sem razão, depois do beijo e da transa a três, as imposições da realidade sobrepõem-se à fantasia e os sonhos de uma vida colorida transformam-se em cinzenta realidade.
Ao acordarem, lado a lado - e nus - no dia seguinte, prevalece a vergonha, a censura, o medo e, inevitável, a culpa. Em especial para o personagem de Tenoch, o mais enquadrado dos dois. No entanto, havia sim, em ambos, a inclinação para os homens. Afinal, eles não eram tão completamente heteros como alardeavam. Possível que o interesse de ambos pelo masculino se restringisse ao amigo; hipótese a se considerar. Talvez um resumisse para o outro tudo o que esperava ou desejava de um varão – jamais sentiriam o mesmo tesão por outro homem. Em relação às mulheres, porém... ah! Desejavam (para si e para o amigo também) todas as belas e gostosas que lhes cruzavam o caminho.
É possível que Tenoch se entregue, no futuro, a um belo casamento com alguma muchacha rica e bonita, mas, nem por isso deixe de frequentar, vez por outra, na surdina, as saunas gays da Cidade do México. Julio, por certo tomaria outro desvio.
É melancólico observar os garotos distanciando-se e cedendo “à moral e aos bons costumes” prevalecentes, e entregando-se a um quotidiano opaco e fastidioso. É mais fácil rotular tudo aquilo como simples “arroubos juvenis”, decorrentes de um “porre homérico”. Fica, porém, a ideia de que foram engalfinhados pelas estruturas de poder, aparelhadas e mobilizadas para bloquear propostas de vida que introduzem outros sentidos e dimensões que os jovens apenas começavam a explorar. Para confirmar essa suspeita, basta ver as inadequações apontadas por nossas autoridades na capa do DVD, justificando a classificação etária do filme, indicando que ele aborda “sexo, temática com impropriedade e desvirtuamento de valores” (grifo meu). Vale questionar: quais valores foram desvirtuados pelo filme? Que virtude e pureza são essas? “Impróprio” significa, neste caso, “inconveniente” ou “absurdo”? Por que não deixar os garotos tentar algo diferente de uma castidade que costuma ficar na aparência, enquanto a hipocrisia extravasa sorrateira?
Abaixo o link para o trailer do filme:



[i] Y tu mamá también; direção de Alfonso Cuarón; México; 2001. Trio: Julio (Gael Bernal), Luisa (Maribel Verdú) e Tenoch (Diego Luna).
 
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Três formas de amar / O banquete de casamento[i]
Três formas de amar
 O banquete de casamento
A escala da sexualidade pende com vigor inquestionável para a atração de um homem apenas pelo mesmo sexo, no personagem de Eddy em Três formas de amar (filme longamente abordado em meu livro, no capítulo Proibido Proibir). Ainda assim, ao longo da história, ele vai devagarzinho inclinando-se a admitir e a se entregar à relação heterossexual. Contudo, seu interesse pelos homens permanece infinitamente superior. Nesse movimento de descoberta do gostinho da heterossexualidade, Eddy guarda alguma semelhança com Wai-Tung, em O banquete de casamento. Este, porém, quer negar – ou melhor, sufocar - qualquer atração pelas mulheres, embora se submeta ao comando de Wei Wei e a engravide logo na primeira relação sexual Curiosamente, ele a engravida para não ser obrigado a enfrentar o temor de contar ao pai que é gay.
Sabemos depois, através da mãe do chinesinho charmoso, que na juventude ele costumava “ter intimidades” com as garotas com as quais namorava. Ele diz que era pura falta de opção, mas o desfecho do filme faz pensar que Wai-Tung era vítima de um estereótipo, o qual foi introjetado para mostrar a sua pessoa sem dar margem a muita confusão, clichê ao gosto de alguns gays “puro sangue”, que rechaçam a bi, a pluri, ou qualquer coisa que não seja a homossexualidade, creditando-as a uma indecisão dos que estão em cima do muro e não conseguem optar pela exclusividade excludente. Ou seja, é um caso típico de bi ou plurissexualidade enrustida[ii]. Em suma: sua propensão para as mulheres era maior do que ele gostaria de acreditar ou admitir.
Wei Wei captou essa orientação de Wai-Tung, razão pela qual ela se lança na tentativa de “comê-lo” a qualquer custo. Por um golpe de sorte, ela consegue realizar seu intento, servindo de escudo para esconder a homossexualidade do parceiro perante a família. Logo no início da cena de sexo do casal, a garota segura o membro do chinesinho, e ele rapidamente se acende para a beldade oriental. Ele, incrédulo, pergunta o que ela estava fazendo e a resposta dispensa comentários: “Eu estou libertando você”.
Ao final da trama, com uma tríade formada no último instante em torno do filho que vai nascer, tem-se a certeza de que Wei Wei não mais ficaria ausente da cama que antes pertencia apenas a Wai-Tung e a Simon. Possível prever que Wai-Tung seja mais frequentemente agraciado com a “coluna do meio”, na hora dos jogos amorosos. É difícil inferir o que se passou com Simon, depois de concordar em participar da tríade, pois esse personagem, a exemplo de Eddy, parece um homossexual convicto, cuja preferência inclina-se para os homens. Exclusivamente e para sempre? Quem já viveu a experiência de estar numa cama com um homem e uma mulher ao mesmo tempo saberá que tudo é possível e poderá se transformar radicalmente a partir daquele momento. Por esse motivo, com o passar do tempo, não seria surpreendente vê-lo despertar-se para as mulheres e, vez ou outra, “tirar uma lasquinha” em Wei Wei.
O inverso de Simon é Stuart, o outro garotão de Três formas de amar: sua predisposição para as mulheres manifesta-se inicialmente como irrefutável e exclusiva. Isso só até o momento em que, fazendo sexo a três, puxa sobre a própria bunda a mão de Eddy, para ser por ele acariciado, enquanto os dois se olham ternamente e compartilham a mulher amada.
Abaixo o trailer de ambos os filmes:
 Três formas de amar
 O banquete de casamento

[i] Threesome: Direção de Andrew Fleming; EUA; 1994. Fazem parte do trio, Eddy (Josh Charles) Stuart (Stephen Baldwin) e Alex (Lara Flynn Boyle).
The wedding banquet; Direção de Ang Lee (Digno de nota: esse é o mesmo diretor de Brokeback Mountain); Taiwan / Estados Unidos, 1993. Participam do trio: Wai-Tung (Winston Chao); Wei-Wei (May Chin); e Simon (Mitchell Lichenstein).
[ii] Numa entrevista de Ney Matogrosso concedida a Júlio Maria e publicada n’O Estado de São Paulo (C2, p. D2; 29/01/2011; Homem com H – Ainda um rebelde), o artista idolatrado revela que passou pela mesma dificuldade:
“Eu tive mulheres, mas sabe que era um incômodo muito grande para o movimento gay, quando eu dizia que gostava de mulheres também? Eles diziam que isso não existia. E eu então não sei de que planeta eu sou. Se isso não existe, eu não sou daqui.”
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Seleção de trailers de filmes sobre o amor a três
Cidade Baixa
 
(Direção: Sérgio Machado - Brasil, 2005)
Proibido Proibir
(Direção: Jorge Duran - Brasil/Chile, 2005)
Ken Park
(Direção: Larry Clark, Edward Lachman; EUA/França,2002) Os amores imaginários
(Direção: Xavier Dolan, Canadá 2010) Triângulo amoroso (Drei)
(Direção: Tom Tyker; Alemanha, 2010)   Castillos de Cartón
(Direção: Salvador Garcia Ruiz; Espanha, 2009) Os três (Os 3)
(Direção: Nando Olival, Brasil, 2011)     Canções de amor
(Direção: Cristophe Honoré, França 2007) Os normais 2 - A noite mais maluca de todas
(Direção: José Alvarenga Jr, Brasil, 2009) 
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