Dom Casmurro


Uma tríade possível?

Existirmos, a que será que se destina?
... Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina [i]

Andante sostenuto

Bentinho, Capitu e Escobar viveram uma história, em que o amor entre os três era superlativo. Dom Casmurro[ii] enseja polêmicas a propósito dos ciúmes doentios de Bentinho. Do meu ponto de vista, a trinca reunia condições adequadas para compor um ménage harmonioso. Contudo, seu meio não liberava espaço para manifestações explícitas de afeto entre homens, o que por certo os inibiu de explorar a possibilidade de se aventurarem numa tríade. Ademais, os dois ex-seminaristas seguramente se enredaram em suas culpas e pudores religiosos, em seus medos adolescentes e em suas vergonhas relacionadas ao meio social. Eram razões mais que suficientes para não explorarem a plurissexualidade[iii] e também para não questionarem o ideal romântico do casamento a dois, monogâmico e heterossexual. A vida, porém, insiste em indicar que as relações afetivas e sexuais são mais complexas, e um casal de dois – desde tempos imemoriais – não é necessariamente a única opção. O que impede a gente de viver esse amor múltiplo, difuso, ambivalente? De onde surgem o entusiasmo e a disposição para reunirem três pessoas numa única relação amorosa, afetiva e sexual?

O livro de Machado de Assis transborda a paixão de Bentinho por Capitu e vice-versa. Procurei captar algumas pistas indicativas do amor entre os homens, o qual perdurou intenso, desde o momento em que se conheceram, até a morte de Escobar. Concordo com os que admitem a possibilidade daquele amor ter se materializado no seminário de padres, onde ambos estudaram. As carícias entre os dois jovens só foram insinuadas no livro por intermédio de cuidadosos disfarces, pois eram condicionadas pelas injunções morais da sociedade patriarcal e preconceituosa do Rio de Janeiro, da segunda metade do século XIX. Nesse caso, como alguns apregoam, a relação entre os dois moçoilos teria sido apenas uma compreensível, perdoável, ou até mesmo salutar brincadeira homossexual da adolescência, para sempre esquecida depois que a heterossexualidade instalou-se plenamente satisfeita? Ou foi evidência, sintoma para sempre abandonado, de uma plurissexualidade latente, fervilhante?

Não importa até onde os dois homens poderiam chegar em suas carícias recíprocas; mas, certamente, teriam curtido a vida muito mais, se tivessem consciência da força e da beleza da inclusão. Se a exclusão de Bentinho face à enigmática relação entre Capitu e Escobar foi de fato real ou apenas imaginária, em nada modifica o argumento de que estavam lançadas as condições para a conformação de um exemplar casal de três, ainda que os homens se dispusessem a ser, um para o outro, nada mais que simples voyeurs. Por que não puderam viver esse amor? Onde está o drama se não faltava ternura? Eis o tema central: Bentinho que amava Capitu que amava Escobar que amava Bentinho que amava Escobar que amava Capitu que amava Bentinho...[iv]

Os amantes de Veneza - Paris Bordonne (século XVI)

Ah, Bentinhos... Quantas cenas despudoradas e excitantes! Observar os Escobares possuindo suas Capitus!

Confio que é saboroso reler fragmentos de Machado de Assis em qualquer circunstância. Vamos, pois, às evidências do bem-querer entre os garotos relatado com enlevo e comedimento por Dom Casmurro e que desponta desde o momento em que se conheceram no seminário.

Os padres gostavam de mim, os rapazes também, e Escobar mais que os rapazes e os padres” (p. 214)...

A força da relação entre os adolescentes se estabelece logo nos momentos iniciais.

Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas, ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões... Não sei o que era a minha... o receio é que me tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las, e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que...” (p. 187/188; grifo meu).

Difícil ser mais explícito. Escobar não precisou arrombar as portas do coração de Bentinho. Bastou empurrá-las para atingir os recônditos mais fechados e obscuros da alma do adolescente que, no seminário, entregou-se a ele, talvez à maneira do que comumente ocorre entre homens nos conventos e prisões. Para o ano de 1858, na capital do Império do Brasil, aos dezesseis anos de Bentinho e dezenove de Escobar, recolhidos em ambiente austero e masculino, as entrelinhas mostram-se evidentes, sobretudo considerando que era o “receio” o que mais tolhia a franqueza do rapagote. Não sem razão, já bem antes Capitu o advertira, à sua maneira, sobre aquele receio, ou o “medo de ter medo” (Capítulo 43: Você tem medo? p. 146).

Contudo, é inegável a intensidade da amizade que desponta.

- Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a mão...
- Que amigo é esse tamanho? Perguntou alguém de uma janela ao pé. Não é preciso dizer que era Capitu... que nos espreitara desde algum tempo... Viu nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas e quis saber quem era que me merecia tanto” (p. 235)...

Havia reciprocidade. Ante a prolongada ausência do amigo adoentado, Escobar perturba-se, conforme o relato de Bentinho.

“Quando voltei ao Seminário, na quarta-feira, achei-o inquieto; disse-me que era sua intenção ir ver-me, se eu me demorasse mais um dia em casa. Perguntava-me com interesse o que é que eu tivera, e se estava bom de todo... Ouvia, espetando-me os olhos” (p. 249)...

Pouco depois, certo domingo, Escobar vai à casa de Bentinho para visitá-lo.

“Tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se me não visse desde longos meses... Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha, e ele respondeu com muita polidez, ainda que um tanto atado, como se carecesse de palavra pronta... O que ele disse, em resumo, foi que me estimava... no seminário todos me queriam bem, nem poderia deixar de ser assim, acrescentou... Tudo isso com a voz engasgada e trêmula” (p. 288/289).

Bentinho regozija-se, de bem com a vida, fruindo os momentos ao lado do amigo querido.

“... Ri, e ele riu também. A minha alegria acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo. Escobar confessou esse acordo do interno com o externo, por palavras tão finas e altas que me comoveram... Não digo o mais, que foi muito...” (p. 292/293).

Se a beleza é mesmo tão fundamental, também ela insinuava-se naquela relação. No que toca a Bentinho, as moças, que mais tarde não lhe dariam sossego.

“Achavam-me lindo e diziam-mo...” (p. 306).

O amigo querido, porém, não ficava atrás no quesito.

Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcíssimos... Nisto não houve exageração do agregado... Realmente, era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz curvo e delgado” (p. 233/234).

Uma boca chocarreira? Bentinho se compraz com uma boca que diz “gracejos atrevidos”? Como é isso? Se Escobar era tão fino e educado que de imediato caiu nas boas graças de toda a família de Bentinho, por certo os atrevimentos do jovem estavam reservados apenas ao amigo do coração. Fosse lá o que fosse, a relação entre eles nunca parou de se intensificar.

“A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda...: (p. 297)
- Aqui no seminário (Escobar), você é a pessoa que mais me tem entrado no coração, e lá fora, a não ser gente da família, não tenho propriamente um amigo.
 - Se eu disser a mesma coisa, retorquiu ele, sorrindo, perde a graça; parece que estou repetindo. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém, você é o primeiro e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.
            Comovido, senti que a voz me precipitava da garganta.” (p 250; grifo meu)

Indago-me: “já notaram” o quê, exatamente? Curioso constatar que Escobar não se importou que os outros já tivessem “notado”. Para o que é que ele estava se lixando? Com o que os colegas poderiam pensar ou dizer? A relação entre os rapazes, no entanto, teima em não se conformar com limites.

- Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão; um padre que estava com eles não gostou.
 - A modéstia, disse-nos, não consente esses gestos excessivos; podem estimar-se com moderação.
Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propôs-me viver separados. Interrompi-o dizendo que não; se era inveja, tanto pior para eles.
- Quebremos-lhe a castanha na boca!
- Mas...
- Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.
Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos. É ilusão, de certo, se não é feito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar...” (p. 295/296; grifo meu)

Décadas depois do aperto de mão, Dom Casmurro ainda sente a “ilusão” (“confusão dos sentidos, sonho, devaneio, quimera[v]”) daquela dor!

“Prazer das dores velhas”; não sou eu quem as batizo. É o próprio Machado quem dá esse título ao capítulo 77 do livro. Capítulo curto. Suficiente apenas para falar de outras dores, contemporâneas àquele diálogo no pátio do Seminário.

“Contando aquela crise do meu amor adolescente, sinto uma coisa que não sei se explico bem, e é que as dores daquela quadra, a tal ponto se espiritualizaram com o tempo, que chegam a diluir-se no prazer. Não é claro isto...” (p. 248).

Seria então a dor do aperto de mão às escondidas uma metáfora para falar do prazer sem fim proporcionado por aquela amizade?

Para esmiuçar aquela conversa entre os dois jovens, retornemos ao início daquele diálogo no pátio do seminário, colóquio para lá de fraterno, sobre os “excessos” dos meninos, conforme a reprimenda do padre. Mestre Aurélio primeiro ensina que “efusão” indica uma “demonstração clara e sincera de sentimentos íntimos”. A seguir, ele nos esclarece que “modéstia” também significa “pudor, decência”. À sua vez, “pudor” tem a ver com “sentimento de vergonha, por atos que se relacionam com sexo” e está associado ao “recato”, tão ao gosto das pregações de alguns clérigos.

Indago-me, pois: o abraço entre Bentinho e Escobar foi considerado um atentado ao pudor pelo padre que os repreendeu? Ou foi uma excelente ocasião para um contato físico entre os rapazes? Teria sido apenas uma oportunidade efêmera, daquelas que a gente nunca perde, de sentir de um jeito carnal o amigo ou desconhecido que seja, mas esse homem aí ao lado, que muito o atrai? Ainda que tudo vá se resumir a saborear um simples toque ou gesto inconsciente, que pode até parecer um ato involuntário, de onde aflora essa vontade de tocar aquela pessoa? Constituiriam aquelas parcimoniosas linhas do livro a forma mais ousada para Machado de Assis expor aos seus contemporâneos o que de fato ocorreu entre os rapazes? Seria a única insinuação possível de ser explicitada por Bentinho de que os garotos se divertiram a valer, durante o tempo em que permaneceram no seminário?

Reparem como a discrição permeia toda a obra. Até mesmo a primeira relação sexual com Capitu é descrita por Dom Casmurro de maneira circunspeta, possivelmente para não afastar a leitura da gente do seu meio. Ele queria e precisava falar a respeito do primeiro sexo com ela, mas não afugentou os leitores da sua época com imagens libidinosas. Atentem para a sobriedade:

“Depois visitamos uma parte daquele lugar infinito. Descansa que não farei descrição alguma nem a língua humana possui formas idôneas para tanto” (p. 317).

Tal evidência sobre o recato do narrador parece suficiente para indicar a ousadia subjacente ao texto de modo geral.

Como qualquer adolescente casto e tímido, super protegido pela mamãe, Bentinho talvez precisasse dos ensinamentos de pessoas mais experientes, mais velhas ou mais entendidas em assuntos do sexo, para orientá-lo através de meandros perante os quais certamente hesitou, ante a multiplicidade de desvios alternativos; alguns, verdadeiros atalhos, outros, obscuros círculos que sempre levam de volta ao ponto inicial.[vi]

Corroborando essa percepção, foi até mesmo necessário que o agregado que vivia na casa de sua família lhe propiciasse a consciência do amor que brotava entre ele e Capitu.

“... Porque a denúncia (do agregado) foi dada principalmente a mim. A mim é que ele me denunciou... ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o coração parecendo querer sair-me pela boca fora... a sensação de um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo... e me trazia arrepios, e me derramava não sei que bálsamo interior... Com que então eu amava Capitu e Capitu a mim?” (p. 33/37/38)

Observem que a consciência vem acompanhada da culpa que ele, predestinado a ser padre, já carregava.

“Às vezes dava por mim, sorrindo um ar de riso de satisfação, que desmentia a abominação do meu pecado...” (p. 38)

Pouco depois, tão cedo quanto na tentativa do segundo beijo em Capitu, ele já confirmava a sua total desinformação a respeito dos assuntos do sexo.

“Não imitava ninguém; não vivia com rapazes que me ensinassem anedotas de amor. Não conhecia a violação de Lucrécia...” (p. 125).

Essa alusão a Lucrécia assemelha-se a um excesso que o escritor se concedeu para ousar e devanear, indicando talvez até onde ele gostaria de ir. Ele escolhe como referência para a sua falta de instrução sexual justamente uma figura cujo nome está associado a orgias, incesto, devassidão e outros que tais.

Avancemos nas especulações. Qual seria o conceito adequado para expressar o que Bentinho sentiu ao afirmar:

“... Eu louvava (para Escobar) as qualidades morais de Capitu... Não lhe tocava nas graças físicas, nem ele me perguntava por elas; apenas insinuei a conveniência de a conhecer de vista...” (p. 252; grifo meu)

Oh!... Que desejo insinuado é esse? Que sensações despertariam em Bentinho divisar o amigão incendiado pela beleza daquela “mocetona”?

Atentem para a seguinte passagem curiosa: ainda antes de conhecer Escobar, houve um precedente interessante, acontecido durante a primeira crise de ciúmes em relação a Capitu. Na iminência de ser obrigado pela mãe a se tornar padre, de modo intrigante, Bentinho quase implora a Capitu para que ela lhe prometa duas coisas:

“A primeira é que só se há de confessar comigo para eu lhe dar a penitência e a absolvição. A segunda é que... promete-me que seja eu o padre que case você?” (p. 152/153)

Como se comportaria o Padre Bentinho no escurinho do confessionário? Quantas narrativas, ilusões, delírios, febres, imaginação, fantasias! Capitu lhe seria para sempre fiel: na condição de padre, ele a conheceria até mais intimamente do que seu marido. Ante as injunções da vida, Bentinho propõe-se, aos quinze anos, a ser o terceiro de um triângulo, um voyeur-ouvinte que jamais se afastaria do seu primeiro amor, de quem seria o eterno confidente. Ele viria a ser o homem responsável por abençoar o amor dela por outro homem, e também a pessoa a conceder-lhe perdão pelos eventuais excessos da carne, pelas possíveis traições ao marido, pelos desejos arrebatadores que porventura viessem desviar Capitu da esperada dedicação ao esposo.

Será que essa possibilidade de ser obrigado pela mãe a se tornar padre, de não ter condições (por sentir medo) de lutar contra as determinações da sua Jocasta[vii], de se conformar com a possibilidade de celebrar, impotente, o casamento de Capitu com outro homem, não lhe restando senão a alternativa de ser para ela um simples confessor - será então que essa possibilidade marcou indelevelmente as fantasias e a vida sexual de Bentinho?

Sou tomado pela sensação de que o desejo pelo amor a três permeia essa obra mais do que imaginei a princípio. Será que a relação entre Bentinho e a irmã de Escobar seria uma alternativa para aproximar os homens, para mantê-los próximos com aquele seu amor que lhes era negado pelos padres e pela sociedade de senhores de escravos?

Recordem-se de que pouco depois de conhecer o amigão, quando descreve as qualidades da irmã de Escobar, Bentinho excede-se ao se referir a ela, como se a conhecesse pessoalmente, o que de fato nunca ocorreu. Tudo que ele sabe é tão-somente através dos relatos do colega, que colecionava cartas da irmãzinha do coração.

“Não é só na beleza que é um anjo, mas também na bondade... (Suas) cartas (são)... simples e afetuosas, cheias de carícias e conselhos...” (p.186)

Bentinho admite então a possibilidade.

“Tais eram - a bondade e o espírito daquela criatura - que me fariam capaz de acabar casando com ela, se não fosse Capitu. Morreu pouco depois. Eu, seduzido pelas palavras dele, estive quase a contar-lhe logo, logo, a minha história. A princípio fui tímido, mas ele fez-se entrado na minha confiança...” (p. 187)

Não deixa de ser instigante essa passagem: Bentinho foi seduzido (!) pelas palavras de Escobar em relação à irmã, a ponto de querer revelar-lhe a sua história, que nada mais era que o seu amor por Capitu. O evidente amor entre os irmãos, quase o faz revelar, de imediato, seu grande segredo - “uma pessoa”. Além do mais, apenas ouvir os louvores de Escobar à irmã, sem conhecê-la, foi suficiente para induzir Bentinho a devanear com a possibilidade de com ela se casar.

O primeiro amor do adolescente, no entanto, era tudo - ou quase - como Bentinho confessa-nos, próximo ao final do livro:

“Capitu sorriu, abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma, provavelmente porque não gostei tanto das outras” (p. 390).

Antes de prosseguir com a história, uma rápida passagem simbólica: como reagiria o nosso pequeno Édipo-Casmurro ao saber que o membro varonil do seu melhor amigo penetraria todos os dias a vagina através da qual ele veio ao mundo? Parece que os garotos exploraram em suas fantasias todas as alternativas para permanecerem unidos. Senão vejamos:

“Era opinião de prima Justina que ele (Escobar) afagara a ideia de convidar minha mãe a segundas núpcias; mas, se tal ideia houve, cumpre não esquecer a grande diferença de idade” (p. 308).

Mais adiante, quando o agregado lhe acena com uma solução para abandonar o seminário, saída que Bentinho mais ambicionava, ele deixa claro que antes de tomar a decisão, precisava

“[c]onsultar a uma pessoa; [r]igorosamente, eram duas pessoas, Capitu e Escobar... era preciso ouvi-la, e assim também a Escobar, que me daria um bom conselho” (p. 298-300).

Contudo, a solução proposta pelo agregado para que Bentinho deixasse o seminário dependia de uma longa viagem a Roma, uma ausência lamentada de vários meses.

“Quando voltei ao seminário, contei tudo ao meu amigo Escobar, que me ouviu com igual atenção e acabou com a mesma tristeza da outra. Os olhos, de costume fugidios, quase me comeram de contemplação” (p. 302).

Uma tríade espiritual constitui-se logo a seguir, com a saída do seminário. Sai Bentinho, Escobar também sai; até paira no ar uma sensação de que este abandona a pretensão da batina apenas para não perder o contato com o amigo.

“A separação não nos esfriou. Ele foi o terceiro (!) na troca das cartas entre mim e Capitu. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor... A princípio custou-lhe a ela aceitá-lo... Venceu Escobar; posto que vexada, Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio... Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros” (p. 308; grifo meu).

As aproximações prosseguem mesmo depois dos casamentos de ambos os rapazes. Será que Escobar casou-se com Sancha, melhor amiga de Capitu, somente para manter-se próximo do casal de amigos? Reparem no comentário de Bentinho:

“Eu, depois de alguns instantes de reflexão:
 - Capitu é um anjo!
             Escobar concordou de cabeça, mas sem entusiasmo, como quem sentia não poder dizer o mesmo da mulher.” (p. 330).

Certa noite Capitu revela uma visita secreta de Escobar a ela, ocasião na qual trocara suas economias em ouro por libras esterlinas, estas providenciadas pelo amigão inseparável. Bentinho se apressa:

“No dia seguinte fui ter com Escobar ao armazém, e ri-me do segredo de ambos. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escritório contar-me tudo” (p. 329).

Perderam, amigos queridos, a grande oportunidade de conversar mais seriamente, de expor, um para o outro, os limites de cada um; de indicar até onde ia o desejo e a fantasia, pois não faltava amor entre os três. Faltou o “pare e pense” sugerido pelo monólogo A namorada charmosa e o amigo galante, como reflexão adequada para o escurinho da alcova.[viii] A revelação de Capitu, porém, transformou-se numa oportunidade para que o ciúme assomasse novamente. Bentinho explica:

(Não foram) ciúmes do mar. Não, meu amigo... A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação deles. Não é mister pecado efetivo e mortal, nem papel trocado, simples palavra, aceno, suspiro ou sinal ainda mais miúdo e leve. Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sirius dentro de Marte, e tu sabes, leitor, a diferença que há de um a outro na distância e no tamanho... Foi isto que me fez empalidecer, calar e querer fugir da sala para voltar... dez minutos depois... Tão pouco tempo? Sim... Os meus ciúmes eram intensos mas curtos; com pouco derrubaria tudo, mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o céu, a terra e as estrelas” (p. 331/ 332).

Esse parágrafo obriga-me a novos desvios de rota. Primeiro, discorro sobre o meu pesar. Acordem, Capitus e Bentinhos mundo afora, não se deixem cegar por esse amor que os envolve de maneira tão plural! Não destruam a linda união de vocês por causa do melhor amigo de Bentinho, tragam-no para vocês dois.

No parágrafo também está, talvez, a única concessão de Machado à plurissexualidade, numa frase curta e altamente significativa:

“Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sirius dentro de Marte...”

Observem que ele não se exclui daquele olhar que tanto pode ser atraído pelo masculino como pelo feminino.

Lamento, por fim, a falta de atrevimento de Capitu, pois quase nada, “[o] mesmo pouco ou menos” seria suficiente para acabar com os ciúmes e “[r]econstruir o céu, a terra e as estrelas”. Pena que ela não soube ou não foi capaz de fazer a conexão entre os machos, pois o episódio aproximou-os todos, assustadoramente, ainda mais.

“A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu, se era possível, ela ainda mais meiga, o ar mais brando, as noites mais claras, e Deus mais Deus... Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas” (p. 332)

Faltava apenas um sopro; nem carecia um furacão.

Não entendo de swing, pois nunca me meti nessa empreitada. Não sei o que ela envolve de emoções, desejos, motivações. Não tenho experiência, intuição ou delírios para comentar a respeito. É possível que surjam muitos a defender que, de fato, em vez de uma tríade, havia sim, um quarteto – Bentinho, Sancha, Escobar e Capitu - pronto para trocar. Em socorro dos que assim pensam, há um capítulo que se passa na noite anterior à morte de Escobar, quando Bentinho e Sancha examinam-se inquisidores.

“... Os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimativos, diziam outra coisa... Dali mesmo procurei os olhos de Sancha... encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam... Quando saímos... a mão dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume... um fluido particular me correu todo o corpo... Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado” (p.363/364/365).

Horas depois de muito remoer os fatos daquela noite, Bentinho conclui:

“O retrato de Escobar, que eu tinha ali... falou-me como se fosse a própria pessoa... rejeitei a figura da mulher do meu amigo, e chamei-me desleal... Quando houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante, destinada a morrer com a noite e o sono?... Sinceramente, eu achava-me mal entre um amigo e a atração... assim refletiria, se pudesse; mas a princípio vaguei à toa. Paixão não era, nem inclinação. Capricho seria, ou quê? Ao fim de vinte minutos era nada, inteiramente nada. O retrato de Escobar pareceu falar-me; vi-lhe a atitude franca e simples, sacudi a cabeça e fui deitar-me” (p. 366/367).

Embora Sancha fosse a melhor amiga de Capitu, seu personagem permanece na sombra e não mobiliza forças interiores arrebatadoras. O casamento com Escobar não tem nada de especial – eram felizes como socialmente esperado - relatando-se certa escapulida do marido, da qual se sabe apenas que não produziu marolas.

Naquela mesma última noite da vida de Escobar, encontra-se mais uma referência interessante, a propósito de outro contato físico entre os amigos. Depois de gabar-se do seu porte físico, Escobar provoca, insinuando-se a Bentinho:

- Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem como eu e ter estes pulmões – disse ele, batendo no peito, e estes braços; apalpa.

          Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me essa confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Nem só os apalpei com essa ideia, mas ainda senti outra coisa: achei-os mais fortes e grossos que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar (p. 364; grifos meus).

Concentro-me no fato de que Bentinho apalpou os braços do amigo “[c]omo se fossem os de Sancha”. Custa-lhe essa confissão porque assim reconhece que houve intenção sexual no ato de apalpar os braços de um homem. Recordam-se das minhas Exortações?[ix]

Aprisiono a todo instante tais entreolhares e toques sutis que os homens se concedem... Há momentos nos quais me intrigam... a impetuosidade dos gestos... o calor dos abraços... os tapas e socos afetuosos, carinhosos, viris; a mão que afaga o ombro, acaricia a nuca...

Vamos um pouco além: Bentinho sentiu inveja dos braços grossos, musculosos, bem torneados de Escobar, braços que não foram mecanicamente moldados em academias, mas esculpidos com primor, através da natação em mares bravios. Retornemos às Exortações:

“O que primeiro olhamos no outro?... Atentamos para uma parte específica do corpo que seduz?” Para o bíceps, tórax ou abdome? Aqueles braços de Escobar não eram apenas sensuais e bonitos de contemplar: “[a]cresce que sabiam nadar”. Algo a ver com a premissa antes da conclusão?

Evito outras análises sobre a referência à esposa de Escobar naquele parágrafo. Apenas afirmo que Sancha não era a mulher indicada para fazer a conexão entre os dois homens; aquele papel caberia a Capitu, que não teve condições de desempenhá-lo, possivelmente também por causa do seu temor religioso, e pelo desconhecimento em relação ao tema. Deixo aos leitores que estão atentos às sutilezas das relações humanas, as controvérsias que o tema poderia suscitar.

Horas após o enterro de Escobar, andando a esmo por estar mordido pelo ciúme decorrente da intensidade do olhar de Capitu dirigido ao defunto, Bentinho põe-se a admirar seu vizinho barbeiro tocando violino e deliciando-se com o fato de ser observado no enlevo da arte, sem se incomodar com o que se passa entre a sua esposa e Bentinho:

“Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses, grudava a face no instrumento, passava a alma ao arco, e tocava, tocava... Divina arte!” (p. 381/382)

Bentinho permite-se, então, outro delírio triangular.

“Supõe agora que este, em vez de ir-se embora como eu fui, ficava à porta a ouvi-lo e a namorar-lhe a mulher; então é que ele, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina arte!” (p. 382)

Assim também se comportaria o Padre Bentinho? Observem que, no delírio ciumento, o barbeiro não agride o homem que supostamente dirige galanteios à sua esposa. Ao contrário, vê-la cortejada motiva-o inclusive a tocar rabeca ainda mais divinamente. Naquela fantasia do marido atormentado teriam sido trocados os papéis? Seria Bentinho-personagem o barbeiro-violinista, e o Bentinho-real seria o próprio Escobar? Nesse caso, o ciúme novamente colocaria Bentinho como simples voyeur, um personagem sempre com medo e dificuldade para tomar as rédeas da vida em suas próprias mãos.

Semanas ou meses depois, ao comentar as desavenças com Capitu, oriundas de um ciúme avassalador, Dom Casmurro faz referência aos seus dois amores.

“Releva-me estas metáforas; cheiram ao mar e à maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu. Assim, posto fosse homem sempre de terra, conto aquela parte da minha vida, como um marujo contaria o seu naufrágio...” (p. 392).

Comborço significa “aquele que é amante de uma mulher, em relação ao marido dessa mulher”, funcionando nessa frase como um pranto, empregado como se fosse um grau de parentesco imposto e indesejado. Teria sido Escobar o terceiro de um triângulo excludente? Tudo, porém, poderia ter se passado às claras, dentro de uma tríade; não era preciso esconder nada. Todos iam fartar-se de amor. “Por que não conversamos a respeito?” deveria ter-se indagado Bentinho, repetidas vezes, sem que, anos depois, Dom Casmurro tivesse desembaraço para relatar esse pensamento.

Bem... e o resto?

“E... qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos (“que chegam a extremos”) ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve!” (p.431/432)

Ofereço-lhes, para encerrar a argumentação, um derradeiro fragmento enigmático de Dom Casmurro:

“Cantei um duo ternissimo, depois um trio, depois um quatuor...” (p. 33)

Tenho a convicção de que o desejo subentendido, latente, era mesmo o trio. O quatuor foi-lhe imposto como alternativa para que os amigos queridos permanecessem lado a lado.

Finalmente, a cada um, o direito à interpretação pessoal, pois é Dom Casmurro quem reconhece e concede a prerrogativa:

“Nem tudo é claro na vida ou nos livros. Tudo se pode meter nos livros omissos... Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.” (p. 196-248).

Talvez em decorrência da sua inserção num extrato altamente preconceituoso da sociedade, o qual só estava habituado às transgressões veladas aos valores morais e cristãos, Dom Casmurro apenas se permitiria contar a sua história através de sutilezas geniais. Pergunto-me: em meados do século XIX, muito antes que o Dr. Freud iluminasse o inconsciente, estariam aqueles dois brasileirinhos, católicos fervorosos, em condições de conversar tranquilamente a respeito do que sentiam um pelo outro? Ainda mais complexo: vocês acreditam que Bentinho – garoto cuja sexualidade foi castrada pela mãe ainda antes do nascimento, quando ela prometeu fazê-lo padre, negando-lhe desde a origem qualquer direito aos prazeres carnais, concedendo-lhe apenas o papel de ouvinte obstinado e compulsivo de cenas eróticas narradas no confessionário – teria crescido e se transformado em homem maduro, independente e atrevido, para perceber, entender e assumir uma plurissexualidade tão dissimulada quanto os olhos de Capitu?

Façam suas apostas, senhoras e senhores!




[i] Versos da música Cajuína – Caetano Veloso

[ii] As citações de Dom Casmurro foram extraídas do volume 7, da edição completa da obra de Machado de Assis, publicada pela W. M. Jackson Inc. Editores (Rio de Janeiro), em 1950.

[iii] A ideia da plurissexualidade foi desenvolvida em meu livro Delírios a propósito de uma fantasia erotica, no capítulo  Enfim, sós!

[iv] Referência à música Flor da Idade – Chico Buarque: Carlos que amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca...

[v] Conf. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; Editora Positivo, 3ª edição, Curitiba, 2004. Neste texto encontram-se outras citações do significado de várias palavras (todas elas entre aspas e em itálico), as quais também se encontram no Mestre Aurélio.

[vi] Um século e meio depois, Ney Matogrosso (um artista da minha tietagem e no qual me espelho), ao discorrer sobre o final da sua adolescência, fala sobre a importância da informação, do conhecimento e da experiência, na formação sexual de um indivíduo:
“Na adolescência eu sentia uma certa atração que eu temia loucamente. O que eu via sobre isso na minha cidade, Bela Vista, em Mato Grosso do Sul, a única informação que eu tinha era a imagem de um camarada homossexual que passava pela rua e a rua toda vaiava. Isso era a única coisa que eu sabia sobre o assunto... Eu pedia a Deus para me matar, mas não me deixar ser aquele rapaz que eu vi em Bela Vista. Até que uma noite, quando estava na Aeronáutica, levantei e dei de cara com dois remadores másculos, um sentado em um beiral e o outro de pé, abraçado a ele. E eu percebi que era uma coisa que estava acontecendo ali que eu não sabia nem que era possível. Aí admiti a possibilidade...  (mas) isso só foi acontecer quando eu já tinha vinte anos.” Entrevista de Ney Matogrosso concedida a Júlio Maria e publicada em O Estado de São Paulo (C2, p: D2; 29/01/2011 – Homem com H – Ainda um rebelde).

[vii] De acordo com a mitologia grega, imortalizada na peça Édipo Rei (de Sófocles), Jocasta e Laio eram os pais de Édipo. Este mata o pai e casa-se com a mãe, sem que nenhum deles soubesse da relação de parentesco entre si. Freud baseou-se nesse mito para formular o conceito de “Complexo de Édipo”, explicando através dele a preferência (ou até mesmo o desejo) do filho pela mãe, evidenciando-se ao mesmo tempo uma “concorrência” com o pai. Este comportamento seria formador do caráter sexual da criança.

[viii] Esse monólogo encontra-se no meu livro Delírios... em um capítulo intitulado: Quando um é pouco, dois é bom, mas três é bem melhor.

[ix] Esse é o título de outro capítulo do meu livro Delírios...
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